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Lazy Lover Undercover

Lazy Lover Undercover

Medo de ser mulher

  • Quando andava no 9º ano, vinha da escola, a um sábado à tarde, na altura andava com ensaios para um musical em que ia participar, e passei por um homem a masturbar-se dentro de um carro. Passei mesmo ao lado, sem me aperceber de nada e, quando de repente o vi, o gajo estava a olhar para mim. Começou a chamar-me. Eu desatei a correr, só parei em casa. Os meus pais repararam que estava estranha e disseram-me que eu estava esquisita, mas não me perguntaram porquê, nem se tinha acontecido alguma coisa, e eu também não lhes disse.

 

  • Quando tinha uns 13/14 anos, vinha da escola, à hora de almoço, e um velhote veio ter comigo, no meio da rua, e ofereceu-me dinheiro para ir com ele.

 

  • Numa outra altura, por volta da mesma idade, estava a ir para casa e um homem, que tinha um atraso mental, cruzou-se comigo e pôs a mão na minha coxa e apertou-a. Eu continuei a andar, sem parar, e desatei a chorar. Recompus-me antes de chegar a casa e ninguém se apercebeu de nada. Quando contei a um amigo o que tinha acontecido, ele gozou comigo por eu ter chorado.

 

  • No dia em que entreguei a tese, fui beber um copo com uma amiga minha a um café, onde já era costume ir. Estava lá um homem, com uns 40 anos, que não parou de olhar para mim o tempo todo. A dada altura tive de ir à casa de banho e tive de passar obrigatoriamente por ele. Fez questão de me “elogiar”. Quando estava a ir para o meu lugar, voltou a fazê-lo: “meu deus, que…”. Quando me sentei, a minha amiga disse que o gajo me olhou de cima a baixo. Eu estava de calças de ganga, sapatilhas e uma camisola preta larga de meia manga. Nessa mesma noite, estávamos a ir para o carro, para irmos embora, e passou um carro por nós, o gajo abrandou logo que nos viu e abordou-nos. Não tinha boas intenções.

 

Daqui a 2 semanas, vou fazer um curso e, para ir, vou ter de apanhar um autocarro a uns 20 minutos de minha casa. E, para voltar, tenho de o apanhar numa rua que nem sequer conheço e voltar a sair a 20 minutos de minha casa. O curso é em horário pós-laboral, ou seja, isto tudo vai acontecer de noite. Estou, desde que me inscrevi, a bater mal com isto. Tenho muito medo. Detesto andar sozinha à noite, na rua. Morro de medo. E se alguém me segue e me faz alguma coisa?

 

O mundo é dos homens

Há dias, em conversa, contava a notícia que li sobre a rapariga que foi violada na casa de banho de uma discoteca, em Gaia, quando estava inconsciente, e que o tribunal condenou a pena suspensa os dois homens que a violaram, considerando ter havido "sedução mútua". Fiquei escandalizada, quando li a notícia, mas mais ainda com as respostas que recebi, depois de a contar: "e o quê que ela foi fazer a essa discoteca?" e "ah, se antes disso se meteu com eles, não interessa". Uma tradução para isto é: "ela estava a pedi-las". Ditas por homens. Pelo meu pai e pelo meu irmão. Nem parece que têm filhas/ irmãs/ namoradas/ esposas. 

 

Revolta-me a maneira como facilmente se assume e defende que as mulheres estão a pedir as coisas más que lhes acontecem. Portugal é um país machista, não há dúvida. É como o táxista que, em dia de greve, diz em directo para a televisão que "as leis são como as meninas virgens, existem para ser violadas". Este tipo de comportamento é inaceitável para mim. Mas, pelo contrário, é quase aceite como normal nesta sociedade. Só o facto do homem dizer aquilo conscientemente e da forma mais natural possível é chocante.

 

Se os homens sentissem na pele as coisas pelas quais as mulheres passam e que eles nem sequer imaginam... Tenho medo deste mundo. Parece que o mundo é deles e não há nada a fazer. O facto de acharem que podem fazer tudo, que dominam tudo, que as mulheres perdem os direitos delas, consoante as vontades deles, seja em que situação for, é revoltante. Que se acharem que houve insinuação, independentemente de ter havido ou não, então é porque a mulher está a pedir que aconteça alguma coisa e tem de levar a vontade deles até ao fim, quer queira quer não, a bem ou mal. E quanto mais poderosos, mais intocáveis se consideram.

 

A história do Cristiano Ronaldo vem agravar este tipo de reações e mentalidades. A maior parte dos comentários que leio sobre este assunto, deixam-me revoltada. Como é que é possível que homens e mulheres pensem e digam coisas tão asquerosas como as que já ouvi e li. Recusam-se a dar o benefício da dúvida e insultam ao mais baixo nível a mulher que o acusa de violação. Eu entendo que toda a gente é inocente até prova em contrário e isto serve para os dois lados. A ser mentira a mulher sofrerá as consequências, a ser verdade, este ódio todo era a última coisa que ela precisava e o Ronaldo terá de ser castigado. E, acreditem, espero que seja mentira.

 

É urgente uma mudança de mentalidade.