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Lazy Lover Undercover

Lazy Lover Undercover

Trabalho na área ou voluntariado?

Como tem vindo a ser meu apanágio, quando não estou a fazer nada, nada acontece e, quando finalmente arranjo o que fazer, chovem propostas de outros lados. Depois de muito tempo a morrer na praia, a ficar em segundo lugar em processos de recrutamento, que duraram meses, e com estágios e trabalhos prometidos, que nunca chegaram a acontecer, decidi candidatar-me a um voluntariado do Corpo Europeu de Solidariedade. Assim que fui selecionada para participar, fui contactada por um antigo professor da universidade, com duas propostas de trabalho na minha área. Tudo o que eu queria, na pior altura possível. 

Em tempos tão incertos como estes, a probabilidade de me cancelarem o voluntariado, por causa do agravamento da pandemia, é bem grande. Da mesma forma, ninguém me garante que, se por acaso for escolhida para algum dos trabalhos, estes não fiquem sem efeito, também, por causa da pandemia. 

Andei a morrer de ansiedade, até ser capaz de contar ao meu pai sobre o voluntariado. Contei-lhe, quando ele me perguntou como andava eu de trabalho. Eu podia ter-me facilitado a vida a mim própria. Dizia que ia fazer um voluntariado e não falava das propostas que tive. Mas não tive coragem de omitir nada e desbronquei-me logo. Para piorar a situação, ele não entendeu que o voluntariado já era certo. E, agora, estou metida numa situação altamente stressante e dilemática.

Adorava fazer o voluntariado, é pouco tempo, um mês e meio, é no estrangeiro e ia fazer-me crescer imenso. Ia viajar sozinha, pela primeira vez, viver num país que não o meu, cozinhar para mim, todos os dias, governar-me sem ajuda, e, quero acreditar, ajudar e levar alegria a quem mais precisa. Ia ser a experiência, pela qual tenho ansiado, estes anos todos.

Candidatei-me na mesma às tais propostas, de que o meu professor me falou, e, para as quais, me recomendou. Agora, é esperar que ninguém goste do meu currículo, nem do meu portefólio, e que não me chamem, para poder fazer o voluntariado de consciência tranquila. Por outro lado, se escolherem e o trabalho for mesmo irrecusável, não sei com que cara vou cancelar a minha participação, que já era certa, num voluntariado que ia adorar fazer, a três semanas de começar.

Posso, também, estar a pôr a carroça à frente dos bois e nenhum dos responsáveis das propostas ter qualquer interesse em contratar-me e toda esta ansiedade ser escusada. Ou, os astros estarem todos impecavelmente alinhados e poder fazer os dois, o voluntariado, até ao fim de dezembro, e começar o trabalho só em janeiro. Mas, claro que situações ideais nunca acontecem.

Medo de ser mulher

  • Quando andava no 9º ano, vinha da escola, a um sábado à tarde, na altura andava com ensaios para um musical em que ia participar, e passei por um homem a masturbar-se dentro de um carro. Passei mesmo ao lado, sem me aperceber de nada e, quando de repente o vi, o gajo estava a olhar para mim. Começou a chamar-me. Eu desatei a correr, só parei em casa. Os meus pais repararam que estava estranha e disseram-me que eu estava esquisita, mas não me perguntaram porquê, nem se tinha acontecido alguma coisa, e eu também não lhes disse.

 

  • Quando tinha uns 13/14 anos, vinha da escola, à hora de almoço, e um velhote veio ter comigo, no meio da rua, e ofereceu-me dinheiro para ir com ele.

 

  • Numa outra altura, por volta da mesma idade, estava a ir para casa e um homem, que tinha um atraso mental, cruzou-se comigo e pôs a mão na minha coxa e apertou-a. Eu continuei a andar, sem parar, e desatei a chorar. Recompus-me antes de chegar a casa e ninguém se apercebeu de nada. Quando contei a um amigo o que tinha acontecido, ele gozou comigo por eu ter chorado.

 

  • No dia em que entreguei a tese, fui beber um copo com uma amiga minha a um café, onde já era costume ir. Estava lá um homem, com uns 40 anos, que não parou de olhar para mim o tempo todo. A dada altura tive de ir à casa de banho e tive de passar obrigatoriamente por ele. Fez questão de me “elogiar”. Quando estava a ir para o meu lugar, voltou a fazê-lo: “meu deus, que…”. Quando me sentei, a minha amiga disse que o gajo me olhou de cima a baixo. Eu estava de calças de ganga, sapatilhas e uma camisola preta larga de meia manga. Nessa mesma noite, estávamos a ir para o carro, para irmos embora, e passou um carro por nós, o gajo abrandou logo que nos viu e abordou-nos. Não tinha boas intenções.

 

Daqui a 2 semanas, vou fazer um curso e, para ir, vou ter de apanhar um autocarro a uns 20 minutos de minha casa. E, para voltar, tenho de o apanhar numa rua que nem sequer conheço e voltar a sair a 20 minutos de minha casa. O curso é em horário pós-laboral, ou seja, isto tudo vai acontecer de noite. Estou, desde que me inscrevi, a bater mal com isto. Tenho muito medo. Detesto andar sozinha à noite, na rua. Morro de medo. E se alguém me segue e me faz alguma coisa?

 

O doce e o amargo de 2019

Doce:

- Tirei, finalmente, a porcaria da carta de condução, em Fevereiro (conduzi duas vezes, desde que a tirei);
- Fiz um exame de Inglês de Cambridge, para ficar com o B2, e acabei por ficar com o C1;
- Visitei a Bélgica (Bruxelas, Bruges e Gent), a França (região de Provença), e Espanha (Barcelona);
- Fiz parte do coro de um espetáculo enorme nacional;

 

Amargo:

Foi o pior ano da minha vida. Nunca me tinha sentido tão sozinha. A amiga em quem mais confiava e que me era mais próxima, afastou-se de mim e substituiu-me por outra pessoa. O meu pai, mais uma vez, provou ser um idiota, insensível. E, num ano tão dificil como este, em que andei triste 90% do tempo, sempre que encontrava alguma coisa que me dava alguma alegria, destruía-me. Foi só para isso que ele serviu este ano, para me deitar abaixo, quando eu já estava no chão. A minha mãe, deu-me a maior facada dos últimos anos, quando tentei desabafar com ela, fazendo um esforço gigante para não me desmanchar a chorar, e ela se riu à gargalhada na minha cara. A morte e o funeral do pai de uma amiga, das pessoas mais 'gente boa' que há, mexeram muito comigo, por razões distintas. O amigo colorido, que tive no início do ano, revelou-se um inimigo gigante, que me sujeitou a violência psicológica o ano todo. Eu sabia que esta história ia correr mal, tive esse feeling desde o início, mas nunca pensei que fosse por estes motivos. Tive de o bloquear nas redes sociais e no telemóvel.

 

Felizmente, no meio de toda esta escuridão, pude contar incessantemente com uma pessoa. Se não fosse essa pessoa, estes fantasmas todos tinham levado a melhor de mim. Tanta estupidez que me passou pela cabeça.

 

Nunca quis tanto que um ano acabasse como este. Espero que 2020 me traga paz. Espero que seja desta que arranjo trabalho na área. Espero continuar a viajar muito. Entretanto, vou frequentar aulas de alemão (já me inscrevi) e vou fazer uma formação em Marketing Digital. É importante manter-me ocupada e, de preferência, com coisas que me permitam evoluir. 

 

Some, de vez

Depois de 4 meses de cura, em que consegui ficar a 80%, ele decide voltar e levar-me de volta ao zero.

Durante este 4 meses, tive esperança que ele reconsiderasse e me voltasse a falar, que percebesse que a reacção que teve não foi a melhor e quisesse, pelo menos, entender a sério o que se tinha passado e ficar bem comigo. Bem, isto é, sem ressentimentos. Que desse, pelo menos, para nos cumprimentarmos, caso algum dia nos cruzássemos na rua. Andei a contar os dias, até deixar de o fazer.

E no sábado, sem contar, recebo uma mensagem dele: "M, até hoje não consegui perceber o que aconteceu entre nós. Queres ir dar uma volta hoje e conversar em condições?". Apanhou-me em casa depois da meia noite. Conversamos, voltei a repetir o que já tinha dito, da última vez que falamos. Que não gostava de estar por estar, que preferia andar e ver e expliquei-lhe que senti uma diferença enorme entre a primeira vez que estivemos juntos e a segunda. Se na primeira foi tudo óptimo, a segunda foi a despachar.

| Foi depois dessa segunda vez que percebi que era um grande erro continuar com aquela "amizade colorida". Uns dias depois disse-lhe que não queria mais, que não fazia sentido para mim. A conversa descambou e ele entendeu tudo ao contrário. Ainda nos chegamos a encontrar para falar melhor, mas não adiantou de nada. |

Ele pediu desculpa. Disse que ficou muito ofendido com o que eu tinha dito, mas que já tinha percebido que tinha sido um mal entendido. Disse que não me queria magoar, mas que eu só considerava a hipótese de as coisas entre nós correrem bem e darem em alguma coisa. E ele não queria isso. Era exactamente o contrário. Eu considero sempre o pior cenário. Nunca dei certo com ninguém, porquê que haveria de dar com ele? Nem sei estar com ninguém, só sei estar sozinha. Disse-lhe isto tudo e ele no fim perguntou: "Estamos esclarecidos?" e eu respondi "Estás esclarecido?". Ele riu-se, achou o meu tom agressivo, mas engraçado. Fiquei a olhar pela janela do carro e ele continuou: "Olha para mim, porquê que não olhas para mim?". Lá olhei e ele beijou-me.

Não senti nada, mas deixei-me levar. Pouco depois o ambiente começou aquecer e ele sussurou um "quero estar contigo". Eu afastei-me e disse-lhe: "Não vai dar". Não ia preparada. Rolou pouco mais que aquilo e no fim ainda estivemos abraçados uns largos minutos.

Ontem, três dias depois disto, manda-me sms a perguntar se vou estar cá no fim de semana. Eu a achar que ele queria combinar um dia para estar comigo, afinal era o oposto. "Queria falar contigo pessoalmente. Não faz sentido para mim continuarmos com isto. Não quero adiar o inevitável e magoar-te. Achei que ia sentir alguma coisa mais, mas a verdade é que não sinto o suficiente para continuar.”

Nunca me tinha acontecido, mas quando li a mensagem fiquei atordoada. A cabeça começou a doer-me de maneira estranha e os meus olhos deixaram de focar, senti-me tonta. Isto durou uns longos segundos. Quis responder-lhe mal, mas depois respirei fundo. E se numa primeira resposta lhe disse que não o entendia, na segunda e última disse-lhe que, pela primeira vez, estávamos na mesma página. Que ele não precisava de falar pessoalmente, que eu entendia e estava tudo bem. Foi a única maneira que arranjei de sair por cima e não me permitir voltar ao buraco negro onde andei nos últimos meses.

Para mim está resolvido.

Não sou carnal. Sou emocional.

Andava feliz da vida, a achar que estavamos na mesma página, que queriamos os dois o mesmo, com um primeiro beijo dado ao som de Tom Misch e tudo! Afinal… “M, o caqui (ou lá o raio do termo que ele usou) não é sério”.

Não contava. Nada mesmo. Muito menos depois da situação constrangedora do verão. Já me tinha convencido de que, pelo menos nos próximos 5 anos, não voltariamos a ter qualquer tipo de contacto. Por isso, aquela mensagem em janeiro apanhou-me mesmo de surpresa. Queria tomar café, fiquei meia incrédula e perguntei-lhe: “a sério?”. A questão é: para quê insistir, para quê voltar a tentar, se é só para ter uma cena que não é séria? Está comigo assim, como podia estar com outra pessoa qualquer. Diz que sempre me achou graça, mas, caramba, a graça é assim tanta que para ele compensa o "investimento" nesta cena não séria?

Gostava de ter sabido mais cedo que isto não era sério. Ainda assim, um dia depois desta conversa, deixei-me levar completamente. Há 6 anos que não estava com ninguém. Tinha-lhe falado dos meus medos e traumas e ele quis dar-me a melhor experiência possível. Já estava completamente na dele, antes de isto acontecer.

Esta história vai correr tão mal para mim. Não me dou com amizades coloridas.

Tenho que me focar no facto de ser um gajo que é mesmo meu amigo, não é alguém que conheci há meia dúzia de meses. Conheço-o há mais de dez anos e sempre nos demos bem, perdemos foi o contacto, a dada altura. Que vai ser sempre honesto e que essa honestidade vai ser tão crua que me vai magoar, como magoa sempre. Que, para mim, não é um qualquer. 

A longo prazo, o arrependimento vai ser inevitável. Não sou carnal. Sou emocional.

 

O mundo é dos homens

Há dias, em conversa, contava a notícia que li sobre a rapariga que foi violada na casa de banho de uma discoteca, em Gaia, quando estava inconsciente, e que o tribunal condenou a pena suspensa os dois homens que a violaram, considerando ter havido "sedução mútua". Fiquei escandalizada, quando li a notícia, mas mais ainda com as respostas que recebi, depois de a contar: "e o quê que ela foi fazer a essa discoteca?" e "ah, se antes disso se meteu com eles, não interessa". Uma tradução para isto é: "ela estava a pedi-las". Ditas por homens. Pelo meu pai e pelo meu irmão. Nem parece que têm filhas/ irmãs/ namoradas/ esposas. 

 

Revolta-me a maneira como facilmente se assume e defende que as mulheres estão a pedir as coisas más que lhes acontecem. Portugal é um país machista, não há dúvida. É como o táxista que, em dia de greve, diz em directo para a televisão que "as leis são como as meninas virgens, existem para ser violadas". Este tipo de comportamento é inaceitável para mim. Mas, pelo contrário, é quase aceite como normal nesta sociedade. Só o facto do homem dizer aquilo conscientemente e da forma mais natural possível é chocante.

 

Se os homens sentissem na pele as coisas pelas quais as mulheres passam e que eles nem sequer imaginam... Tenho medo deste mundo. Parece que o mundo é deles e não há nada a fazer. O facto de acharem que podem fazer tudo, que dominam tudo, que as mulheres perdem os direitos delas, consoante as vontades deles, seja em que situação for, é revoltante. Que se acharem que houve insinuação, independentemente de ter havido ou não, então é porque a mulher está a pedir que aconteça alguma coisa e tem de levar a vontade deles até ao fim, quer queira quer não, a bem ou mal. E quanto mais poderosos, mais intocáveis se consideram.

 

A história do Cristiano Ronaldo vem agravar este tipo de reações e mentalidades. A maior parte dos comentários que leio sobre este assunto, deixam-me revoltada. Como é que é possível que homens e mulheres pensem e digam coisas tão asquerosas como as que já ouvi e li. Recusam-se a dar o benefício da dúvida e insultam ao mais baixo nível a mulher que o acusa de violação. Eu entendo que toda a gente é inocente até prova em contrário e isto serve para os dois lados. A ser mentira a mulher sofrerá as consequências, a ser verdade, este ódio todo era a última coisa que ela precisava e o Ronaldo terá de ser castigado. E, acreditem, espero que seja mentira.

 

É urgente uma mudança de mentalidade. 

 

A maldita ansiedade que não me deixa viver

Sofro de ansiedade. Muito mesmo. E não é uma merdiosquice, é uma coisa que afecta imenso a minha vida. Não consigo viver. Não consigo estar no presente. Não consigo aproveitar o momento. Seja ele qual for. E sempre fui assim, mas agora anda pior. A minha vida anda tão parada, que à mínima mudança parece que vou morrer. O meu peito acelera desalmadamente, as insónias acentuam-se, as mãos escorrem suor (e eu já suo imenso das mãos), tenho de estar constantemente a respirar fundo, tal é a sensação de pulmões encolhidos. É terrível. Sofro imenso por antecipação e, a maior parte das vezes, sem necessidade nenhuma, porque os medos acabam por não ser reais. Mas eu na altura não sei isso e, pior, não consigo controlar.

 

Como disse, está pior, mas sempre sofri de ansiedade, só não sabia é que este sofrimento tinha nome e que era, de facto, uma doença psicológica. A ficha só me caiu, quando chumbei pela segunda vez no meu exame de condução, e o examinador me disse que o meu grande mal era sofrer "de ansiedade excessiva". Nunca me tinha passado pela cabeça que pudesse sofrer deste mal. Sempre achei que fosse maneira de ser, que era parte do meu feitio e personalidade ser tão nervosa, negativa, insegura e sofrer tanto por antecipação. E, embora o examinador não seja nenhum médico para me diagnosticar, a verdade é que ele tinha razão. 

 

Irrita-me que se encare a ansiedade como uma idiotice que as pessoas só têm porque querem. A ansiedade "é uma emoção normal, mas em excesso vira doença". Há até pessoas que precisam mesmo de ser acompanhadas por profissionais e de tomar medicação para a atenuar. Questiono-me se não será esse o meu caso. Já falei à minha mãe, mas ela também não ligou.

 

Amor? Sem um, nem outro

 

 

Estive tanto tempo solteira, anos mesmo, e, de repente, vi-me metida numa encruzilhada gigante entre duas pessoas.

 

Há coisa de dois/três meses, um amigo de longa data, o D, com quem tinha perdido contacto, convidou-me para tomar café. Fui, nervosa como tudo, já não o via há anos, e correu muito bem. Meio que fiquei pancazita por ele. Estava um homem bonito e super interessante, não costumo cruzar-me com pessoas tão interessantes como ele, e comecei a imaginar mil e uma coisas e a fazer muitos filmes...

 

Entretanto, fui trabalhar uns dias para uma cena e conheci um rapaz, o A. Era engraçadito e estava sempre a pegar com uma colega nossa mais nova, divertia-me muito ao vê-los aos dois. O trabalho acabou, foi cada um à sua vida e dei por mim a pensar imenso nele. Que nunca mais o ia ver na vida, que devia ter falado mais enquanto trabalhavamos, enfim.

 

Continuei a ir tomar café com o D e, embora para o segundo café não tenha ido tão entusiasmada como fui para o primeiro, a verdade é que correu muito bem e cheguei a casa contente. 

 

Nem uma semana tinha passado, desde que o trabalho tinha acabado, e eu e o A começamos a falar e, desde esse dia, nunca mais paramos. Fomos tomar café, achei-o um tone e, enquanto lá estava, percebi que nunca ia haver nada, que afinal não lhe achava assim tanta piada. Continuamos a falar e eu meio que ignorei o que senti no café.

 

O D não dava sinais nenhuns de estar para aí virado e fiquei a achar que era só mesmo a cena de sermos amigos e comecei a pôr de parte qualquer interesse que pudesse ter por ele, até porque só tomavamos café uma vez por mês e nunca falavamos a não ser para os marcar.

 

Certo dia, eu e o A fomos trabalhar juntos, calhou, chamaram-nos aos dois, e todo aquele ambiente de trabalho deu-me pica. A piada que não lhe tinha achado no dito café, naquele dia estava ao rubro. Levou-me a casa no fim, tranquilo, e convidou-me para sair no dia seguinte. 

 

No dia seguinte, acabou por se dar o beijo, que deu inicio às coisas. 

 

Andávamos há 2 semanas, quando o A foi um mês para fora. Durante esse período, o D voltou a convidar-me para tomar café. O café correu muito bem, falamos imenso sobre imensa coisa e no fim quis ir dar uma volta. Estávamos no carro a caminho e eu rezava para que fosse filme meu e que ele não tivesse interesse nenhum. Saiu-me o tiro pela culatra. Depois de muito conversarmos, aproximou-se de mim e quase me beijou. Parei-o a tempo. 

 

Ele não percebeu e eu não sabia como explicar. Disse que estava tudo bem e perguntou-me se não queria. E eu perguntei-me o mesmo: quero ou não quero? O que raio é que eu quero? A verdade é que o D é o mais parecido com o que sempre quis. É super culto, interessante, bonito, mas o A existe e eu não sei lidar com esta situação. Escolhia um em detrimento do outro? Se fizesse um prós e contras o D ganhava, mas o A dá-me segurança e vontade de estar, por outro lado, não me estimula e acrescenta a cultura que o D tem para dar e para vender e isso para mim é tão importante.

 

Tanta indecisão fez-me perceber que não estou bem com nenhum, que o melhor mesmo é continuar sozinha. 

Pai, não sou eu que estou mal. És tu.

O meu pai faz anos. Fez questão de me dizer, várias vezes, que não queria festa de anos. Está chateado. Chateado connosco. E eu estou chateada com ele. Embora ele não saiba. Mais que chateada, estou magoada.

 

O meu pai acha que o dar-nos tudo é pagar as nossas coisas. Esquece-se é que não somos robôs. Que temos dons, sonhos e vontades que ele não pode controlar. Que não nascemos para cumprir as expectativas dele. Que o que ele acha que é o melhor para nós e que o faria feliz, a maior parte das vezes, não entra em lado nenhum na nossa vida. Porque não tem nada a ver connosco, porque não gostamos, porque não nascemos para isso, ponto. O que eu dava por ter um pai compreensivo e que me apoia. Nunca tive. Nunca terei.

 

Nunca apoiou a minha decisão de estudar comunicação. Queria à força toda que fosse para direito. E a luta que foi para mudar de ciências para humanidades, no secundário. Nunca, em 5 anos de curso (licenciatura e mestrado), me perguntou como é que estava a correr e se eu estava a gostar. Agora, já com tudo terminado, com boa média e sem nunca ir a recursos, faz questão de continuar a mostrar que não está feliz com as minhas escolhas. Acha que nunca vou conseguir fazer nada de jeito com a área que escolhi. Posso não ter um emprego das 9h às 17h, mas, para todos os efeitos, estou a trabalhar na minha área. E, de vez em quando, vou fazendo uns biscates à parte para juntar dinheiro. Nem a isso ele dá valor.

 

É triste crescer com uma pressão estúpida para ser a melhor em coisas que nunca gostei. Ter de pôr de parte aquilo em que sou boa e que me dá gozo, porque para ele não é aceitável ou digno. É até de baixo nível. Não gosta que nos contentemos com pouco. Esquece-se que o que é pouco para ele, para nós é tanto.

 

Continua preso ao passado e recusa-se a abrir os olhos. Para ele, empregos dignos continuam a ser os de antigamente. O meu não entra de todo nessa lista. Magoa-me muito que esteja constantemente a relembrar-me que sou e somos uns falhados para ele. Faz questão de estar sempre a dizer que o grande desgosto da vida dele é não ter um filho médico. Se ele que veio do nada o conseguiu ser, nós que tivemos tudo tinhamos mais do que obrigação de o ser também.

 

Mas pai, não sou eu que estou mal. És tu. Tu que insistes em ser um pai ausente. Tu que não falas connosco, a não ser para "ralhar". Que não dás carinho. Que não te esforças por ser compreensivo. Que nunca soubeste o que é apoiar. Tu que contribuis para que seja insegura e não tenha confiança nenhuma nas minhas capacidades. Tu que, continuamente, mostras que nunca serei suficientemente boa para ti. Tu que achas que a nossa obrigação é cumprir as tuas expectativas. Tu que achas que te devemos a nossa felicidade e sanidade mental. Tu que tens uma percepção de amor distorcida e, por muito que tentemos mudá-la, tu recusas deixar-te mudar.  Tu.

 

Quem me dera que não fosses médico.

 

 

"Acho que às vezes os pais querem tanto o sucesso dos filhos que acabam por não se aperceber que a felicidade está no livre-arbítrio deles e no incutir da confiança. Eles não têm que corresponder a uma vontade dos pais. Percebes? Está tudo retorcido." Manel Cruz, 7 de janeiro de 2018, Observador

 

 

Eurovisão: Obrigada, Austrália

 

 

Se não fosse a Austrália a salvar a 2ª semi-final da Eurovisão, estava tudo perdido. Quem diria. A Jessica Mauboy trouxe muita energia, muita alegria e interacção com o público, que é uma coisa que raramente se vê.

 

Achei a 1ª semi-final super forte e a 2ª o exacto oposto. Se na primeira tive dificuldade em fazer uma lista dos 10 países que mais gostei de ouvir e/ou achei que fazia sentido estarem na final, desta vez a lista resumiu-se a 4 países. Parece que juntaram os bons todos numa semi-final e os maus todos noutra, mas para não se notar, pegaram em dois ou três maus e dois ou três bons e misturaram-nos, na 1ª e na 2ª semi-final, respectivamente.

  

Na 1ª semi-final ficaram pelo caminho países que mereciam passar à final, mas a concorrência era muito alta. Na segunda quem merecia passou, a concorrência era fraca. 

 

Com excepção da Austrália, da Moldávia e da Eslovénia foi tudo muito aborrecido. A Moldávia, embora não me lembre da música, destacou-se pela performance diferente, divertida, e muito bem conseguida (até sósias dos cantores eles tinham) e a Eslovénia pelo "erro técnico" encenado (achei mesmo que era a sério). San Marino bem tentou destacar-se com os robots, mas o conjunto todo não deu com nada.

 

No final de contas, uma pessoa em palco a cantar bem e divertir-se a ela e aos outros, a fazer a festa e a deitar os foguetes, basta para ser bom. Se não, alguém que cante qualquer coisa com sentido e sinta aquilo que está a cantar.