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Lazy Lover Undercover

Lazy Lover Undercover

A novela que é a vida da minha mãe

A minha mãe tem uma história de vida que parece uma novela. Nunca conheceu o pai, só viveu com a mãe até aos 4 anos e depois foi para uma instituição, onde esteve até aos 20 e tal anos, e por onde passou coisas que nem imaginadas. A cada história que me conta, o meu coração aperta mais. Já a aconselhei a escrever sobre esses mil episódios porque passou, acho sinceramente que ia ser uma boa terapia para ela.

 

Ontem, uma prima da terra ligou-lhe e deu-lhe uma grande novidade sobre o pai e sobre a familia dele.

 

A versão que se conhecia até agora era que o pai da minha mãe tinha ido para o Brasil, quando a minha mãe nasceu, e nunca mais tinha voltado. Parece que afinal a história não é bem assim. A minha avó veio do Brasil para Portugal grávida da minha mãe. O meu avô, que era português emigrante no Brasil, não pôde vir logo. Quando já tinha tudo pronto para vir, soube que a minha avó andava metida com um familiar dele e ficou com um desgosto tão grande que não chegou a vir. E nunca mais voltou. 

 

A verdade é que agora os meios irmãos brasileiros da minha mãe a querem conhecer.

 

A minha mãe está curiosa e bastante entusiasmada, embora diga que não. Acredito que esta nova versão dos factos lhe tenha trazido algum alívio e paz, por perceber que a história estava mal contada e que o pai dela até nem era má pessoa.

 

Nota: nunca mais contar a ninguém que tenho uma entrevista

Depois de ontem, tenho uma lei a aplicar: nunca dizer a ninguém que vou ter uma entrevista de emprego/estágio profissional/o que for. Mantenho a calma, relativizo, tento não dar muita importância, até porque é só uma entrevista, são mil cães a um osso e a hipótese de ficar eu com o lugar é muito pequena. Contudo, as pessoas à minha volta, que sabem da entrevista (neste caso eram só 3), stressam-me até mais não.

 

Primeiro, batem à porta do meu quarto com tanta força que parece que a vão mandar abaixo, berram pelo meu nome para eu não adormecer e o pior é que fazem tudo isto meia hora antes da hora a que tinha de acordar. Desde os tempos da escola que não preciso que ninguém me acorde, por que raio precisaria que me acordassem nesta situação? Ainda por cima desta maneira?!

 

Depois, mandam-me mensagens com discursos inspiradores a pedir para eu manter a calma, que é só uma entrevista... Isso sei eu! Essas mensagens, por melhores intenções que tenham, têm o efeito oposto do que queriam. É que ao dizerem esse tipo de coisas só estão a contribuir para que eu fique mais nervosa. Epa, um "boa entrevista" chegava, mas se não dissessem nada ainda era melhor. Falamos no fim.

 

Por fim, já depois da entrevista, perguntam como correu e eu explico, mas se a resposta não for boa, ou pelo menos não tão boa como contavam, ficam com um olhar que é um misto de pena com zanga, como se o pensamento que corre na cabeça no momento fosse "fogo, ainda não é desta que esta rapariga se desenvencilha". 

 

Por isso, para a próxima dispenso tudo isto, cortando o mal pela raiz.

 

Já não faz sentido

O natal e a passagem de ano cada vez me dizem menos. A cada ano que passa, a paciência que as pessoas têm para estarem todas juntas diminui e o esforço que se faz para se estar à mesa a conversar aumenta. Tanta impaciência tira-me do sério e o não dar valor às coisas ainda mais. Se é para viver e me obrigarem a viver as coisas pela metade, e para reclamarem com tudo o tempo todo, prefiro mudar de tradições e fazer novas com outras pessoas mais gratas.

 

Nem pela meia noite foram capazes de esperar para brindar e assinalar devidamente a passagem do ano. Não houve contagem decrescente e as palavras foram ocas. Para mim não fez sentido. Celebramos a mudança, a passagem do tempo, a passagem de ano em 2017 e, ainda em 2017, os festejos acabaram. Se é para ser assim, para o ano janta-se e vai cada um à sua vida. Sempre fui apologista de se celebrar o natal e a passagem de ano em família. Fazia-me confusão o pessoal que passava estas datas com outras pessoas que não a família, mas agora, depois destas celebrações, desejei ter sido uma delas. 

"E agora, o que vais fazer?"

 

 

Dois meses depois da entrega da tese e uma semana depois da defesa, a pergunta que toda a gente me faz: "E agora, o que vais fazer?". Sabe deus. Tudo é uma possibilidade. Para já, aproveitar o natal. Entretanto, procurar oportunidades. Descobri há uns meses que tenho a possibilidade de fazer erasmus, já depois de ter os estudos concluídos. Sempre quis fazer erasmus e nunca tive oportunidade, por isso tenho andado a procurar ofertas, mas ou falta transparência nas plataformas próprias, ou é tudo demasiado bom para ser verdade. Desconfio de tudo. 

 

Para já estou bem, aliviada por ter tirado um peso gigante de cima, mas já sei que daqui a uns meses, se estiver parada, vou ser consumida por uma sensação brutal de mau-estar que vai dar cabo de mim, vou voltar à angustia que senti há uns tempos. Tenho é que me manter ocupada, mas quanto menos tenho para fazer, menos me apetece fazer. É um ciclo vicioso que tem de ser combatido. A ver se, pelo menos, a carta fica arrumada de vez. Farei por isso.

Nunca vi nada assim

Um incêndio aqui ou ali é normal. A cidade cercada por fogo? Foi a primeira vez. 

 

De tarde, já era impossível ter a janela aberta, o cheiro a queimado era intenso e o ar irrespirável, mas longe de mim imaginar a dimensão a que isto ia chegar, quando caiu a noite.

 

Em pleno mês de Outubro, Portugal a arder desta maneira? 500 e tal incêndios em dois dias? Nunca imaginei sequer nada assim.

 

RTP, o quê que se passa?

"Eu quero ser youtuber"? A Luísa e o Salvador não serviram de exemplo, afinal?

 

É o terceiro festival da canção júnior que acompanho, desta vez com o nome "Juniores de Portugal", e é o pior de sempre. A música já está escolhida (é péssima) e o concurso serve, apenas, para escolher o miúdo ou a miúda que a vai cantar em representação de Portugal. 

 

Das outras vezes, as crianças/adolescentes participavam na invenção da música e na escrita da letra e era muito mais interessante, quanto mais não fosse pela variedade. 

 

Isto foi muito mau.

 

 

Encaralhanços

Festa da cidade. Corro três casas de banho, todas elas à pinha, e sugiro, por fim, à minha amiga irmos a um café aleatório lá na zona, que de certeza que não ia ter fila. Estou à porta da casa-de-banho à espera da minha vez e quem é me aparece à frente, acabado de sair da casa-de-banho dos homens? O kedi. Fiquei meia encaralhada, sem saber o que dizer e para quebrar o silêncio constrangedor disse a coisa mais estúpida que me veio à cabeça: "ganga com ganga?" -.- Não o via há séculos e a primeira coisa que me ocorre fazer é pegar com a roupa dele e dizer é isto? Ai que idiota.

Segredos

Sou um túmulo. Os segredos dos outros não saem de mim, apesar de já pesarem bastante. Com os meus tenho outra liberdade. Mas se há segredos que demorei 15 anos a conseguir revelar a alguém, e que explicam parte da minha personalidade e dos meus traumas, há outros que continuam enterrados e nem o álcool um dia será capaz de mos fazer revelar. Há coisas que magoam mais depois de contadas, até lá vão ficando meias adormecidas, como se não fossem verdade.

Cabo Verde tem encanto

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Viajei para Cabo Verde e que bofetada gigante levei. Foram duas semanas na Ilha de Santiago, em duas cidades diferentes, a viver uma realidade distante da minha: a escassez de água e de comida, o povo que, quanto menos tinha, mais nos dava, as paisagens de cortar a respiração, o funaná que tocava de manhã à noite, as batucadeiras enérgicas, as tartarugas enormes a desovar, os milhares de coqueiros e bananeiros que acompanhavam as viagens de hiace, e a sintonia entre vacas, porcos, cabritos, cães, burros e gatos.

 

Foram duas semanas que podiam ter corrido muito mal, mas que correram muito bem. O primeiro dia em Santa Cruz foi um choque cultural enorme. Apesar de todos os avisos, não ia preparada para o que encontrei. A zona onde fiquei era bastante pobre, havia carradas de construções, em fase inicial, ao abandono, dezenas de cães vadios em estado de magreza extrema e mal tratados e muitos miúdos de rua. Apesar de tudo, Santa Cruz tinha lugares lindíssimos, a praia era de areia preta e as crianças eram umas fofas e ficavam impressionadas com a cor da nossa pele e com o nosso cabelo e queriam sempre tocar-nos e fazer-nos tranças.

 

No Tarrafal já foi tudo diferente. Já não víamos as crianças e os animais como havíamos visto em Santa Cruz. A cidade estava mais bem tratada e em termos turísticos estava bem mais desenvolvida. O principal ponto de visita era o Campo de Concentração, para onde eram enviados os presos politicos no tempo da ditadura, e a praia, que tinha como fundo a montanha Graciosa, em forma de elefante. 

 

Ainda assim, o que me conquistou realmente em Cabo Verde foi a música. Respira-se música lá! E não falo do funaná, falo dos ritmos quentes, falo dos guitarristas que deixam qualquer um abananado, caramba, eu ficava lá, só para poder assistir a actuações daquelas.

 

Hei-de voltar e até mais cedo do que imagino.

 

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